sábado, 17 de agosto de 2013

Livro infantojuvenil aborda o mal de Alzheimer de maneira delicada

Fonte: Folha de São Paulo
Mais do que narrar contos de fadas ou histórias totalmente fantasiosas, os livros infantojuvenis acabam servindo para inserir as crianças e pré-adolescentes em contextos adultos e ensiná-los a lidar com problemas bastante complexos. A premiada escritora Laura Bergallo faz isso de maneira primorosa em "Jogo da Memória" (Escrita Fina, 2010). Ela transforma o mal de Alzheimer em uma história repleta de ternura e emoção.
Divulgação
Garoto acredita que quadrilha está roubando as memórias de seu avô
Garoto acredita que quadrilha está roubando as memórias de seu avô
A trama narra a relação de Lucca com seu avô Pietro. Os dois costumam se divertir com um jogo da memória dos famosos mosaicos de Aquileia, uma cidade do norte da Itália. Enquanto estão reunidos em volta do tabuleiro, o garoto ouve com atenção as recordações do avô sobre seus primeiros amores, as aventuras juvenis e a guerra. No entanto, depois de um tempo, o patriarca da família não só começa a perder o jeito para o jogo como também passa a confundir o nome de filhos, dos netos e da própria mulher.
Enquanto a medicina credita o incidente ao mal de Alzheimer, Lucca desconfia de que a memória de seu avô foi roubada por uma quadrilha de perigosos bandidos, que ganham dinheiro vendendo as lembranças alheias. Junto com seus primos, ele tenta desmascarar a organização criminosa e se envolve em uma aventura eletrizante e cheia de surpresas.
Leia abaixo um pequeno trecho extraído do livro.
*
- Lucca, vai ver se está tudo bem com seu avô lá na varanda - pediu vovó, que conversava com mamãe na sala de jantar lá de casa, numa tarde em que eles passaram pra nos visitar depois de uma ida ao supermercado.
Eu larguei o videogame na mesma hora e fui ver vovô. Cheguei em silêncio, porque achei que ele podia estar dormindo. E lá estava ele, sentado na cadeira de balanço de que tanto gostava, mas bem acordado.
E fazendo uma coisa que me surpreendeu bastante, conhecendo vô Pietro como eu conhecia: lendo atentamente um livro de poesias de mamãe, que ela havia deixado sobre a mesinha da varanda. Logo ele, que sempre achou ler poesia a maior perda de tempo.
Continuei chegando perto devagar, pra não interromper aquela cena tão rara. Me aproximei por trás e, sem que ele notasse, pude ler o poema que chamava tanto sua atenção. Era do livro Muitas vozes, de Ferreira Gullar, que mamãe tinha ganhado do papai. O poema era curtinho, e uma parte dizia assim:
Aqui me tenho
Sem mim
Nada lembro
Nem sei
À luz presente
Sou apenas um bicho
Transparente
E ele não virava a página. Desde que eu estava ali, já tinha dado tempo pra ler o mesmo texto umas dez vezes, mas vovô não mudava de página ou desviava os olhos, como se estivesse fascinado por aquelas palavras.
Foi quando eu percebi que ele estava chorando.
Não consegui entender bem por que, e fiquei sem saber o que fazer. Não queria que ele soubesse que eu, mais uma vez, o tinha visto com o nariz vermelho e os olhos inchados de choro. Então fiquei o mais quieto que pude, e fui saindo pé ante pé, até chegar na sala e tentar disfarçar, pra mamãe e pra vovó, o nó na garganta que quase não deixava minha voz sair.
- E aí, Lucca? - perguntou mamãe, meio desconfiada do meu jeito estranho. - Está tudo bem com seu avô?
- Tudo - eu disse, tentando parecer o mais normal possível. - Ele está tirando um cochilo, só isso.
Então as duas, mais tranqüilas, retomaram o papo animado que estavam tendo antes. Mas eu não consegui tirar da cabeça as palavras do poema que tanto impressionaram vovô.
Foi nesse dia que eu desconfiei seriamente que ele estava indo embora pra sempre.
*

"Jogo da Memória"
Autor: Laura Bergallo
Editora: Escrita Fina
Páginas: 148
Quanto: R$ 28,05
Onde comprar: Pelo telefone 0800-140090 ou pelo site da Livraria da Folha.

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