sábado, 28 de julho de 2012

5 propostas para as cidades se preparam para o envelhecimento

Bibiana Graeff e Maria Luisa Bestetti, em entrevista concedida ao site Zero Hora, listaram cinco propostas para as cidades se prepararem para o envelhecimento da população nas próximas décadas. Gestores públicos e profissionais ligados a cada assunto comentam as sugestões, apresentando a situação atual e as providências que ainda precisam ser tomadas.

Maria Luisa Bestetti, doutora em Arquitetura e Urbanismo pela Universidade de São Paulo (USP), é especialista em gerontologia ambiental. Bibiana Graeff é doutora em Direito pela Université Paris Panthéon-Sorbone e pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), ministra a disciplina de Direitos Humanos e Envelhecimento no curso de Gerontologia da USP.
 

1. Incluir lições de gerontologia nas escolas
Inserir conteúdos de gerontologia no ensino fundamental das escolas públicas e privadas, esclarecendo as características do ciclo de vida e os efeitos naturais do envelhecimento ajudaria a reduzir os preconceitos e os mitos sobre a velhice.
— Abordando esses temas na infância, formaremos cidadãos mais conscientes sobre os direitos e deveres de todos, respeitando limites e diferenças — considera Maria Luisa.
Jose Clovis de Azevedo, secretário estadual de Educação: "Essa preocupação é justa. Estamos vivendo um processo de envelhecimento e uma das funções da educação é discutir os problemas da sociedade. Não seria o caso de criar uma disciplina para tratar do envelhecimento, mas abordar essa problemática de forma interdisciplinar, colocando as questões etárias nas aulas de biologia, de história, em todos os campos. Acolhemos a sugestão e acreditamos que a Secretaria de Educação pode enfatizar mais essa questão no currículo de todas as áreas do conhecimento."
2. Fortalecer os conselhos municipais e estaduais do idoso
Para Maria Luisa, estabelecer um programa de capacitação em gerontologia para funcionários públicos transformaria os relacionamentos entre Estado e cidadãos, melhorando inclusive a produtividade dos funcionários por tomarem consciência da necessidade de prevenção quando se deseja qualidade de vida.
A proposta é reforçada por Bibiana, que sugere implementar, capacitar e fortalecer, com recursos humanos e materiais, os conselhos municipais e estaduais do idoso, para que possam, em articulação com outras entidades, como o Ministério Público, exercer efetivo controle sobre as políticas públicas de interesse para o idoso.
Leonildo José Mariani, presidente do Conselho Estadual do Idoso: "Sintonizamos com as propostas no sentido de uma dedicação rápida e forte para a capacitação de servidores públicos e recursos humanos em geral em gerontologia. A grande meta do Conselho Estadual do Idoso é a implantação de Conselhos Municipais do Idoso em todos os municípios do Rio Grande do Sul. A tarefa não é pequena, pois hoje existem aproximadamente 100 municípios com Conselho Municipal. Portanto, há mais 400 por serem criados. Conselheiros, gestores e cuidadores são capacitações fundamentais."
3. Criar meios para substituir os cuidadores originais
A longo prazo, há necessidade de criar equipamentos de apoio social que suportem as necessidades de idosos com dependências, seja no seu cuidado diário seja na necessária atenção ao lazer, cultura e convivência social.
— Os cuidadores originais estão diminuindo, pois as pessoas têm menos filhos ou estão comprometidas com carreiras profissionais, o que acarreta a necessária oferta de alternativas que poderão, inclusive, reduzir custos desnecessários com atendimentos emergenciais em saúde e conflitos intergeracionais, resultando em garantia de justiça social — observa Maria Luisa.
Nesse sentido, Bibiana destaca que é importante não apenas regulamentar a profissão de cuidador de idoso, mas igualmente estimular a necessária especialização de profissionais em gerontologia.
Newton Terra, geriatra, diretor do Instituto de Geriatria da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS) e coordenador do curso de formação de cuidadores: "A Organização Mundial da Saúde e a Organização Panamericana da Saúde vêm enfocando a atenção ao idoso e a formação de profissionais para o cuidado gerontológico. Com a expectativa de vida avançando, o número de filhos por mulher caindo, o cuidado especializado ao idoso será cada vez mais necessário. No Brasil, a profissão de cuidador ainda não está regulamentada, mas o processo para regulamentação já foi aberto. Hoje, a categoria faz parte do Cadastro Brasileiro de Ocupações. A falta da regulamentação, no entanto, favorece a atuação de muitos cuidadores informais e dificulta a padronização da formação desses profissionais."
4. Investir em acessibilidade urbana
Nas cidades, os semáforos são normalmente regulados para atender a uma velocidade de passo de 1,2m/s e a velocidade média da caminhada de um idoso é de 0,4m/s, aponta Maria Luisa. Outro exemplo de adequação urbana citado pela pesquisadora é equipar pontos de ônibus com assentos adequados para atender a um público com diminuição da mobilidade e da força física devido ao avanço da idade. Orientação visual, tátil e sonora também são elementos importantes por causa da baixa acuidade visual e auditiva características da velhice.
— É preciso garantir uma melhor circulação nos espaços públicos e privados, através do incremento e da melhoria dos transportes públicos, e da implementação do desenho universal para garantir a acessibilidade — concorda Bibiana.
Vanderlei Luis Cappellari, secretário de Mobilidade Urbana de Porto Alegre: "Porto Alegre é uma das poucas capitais que garantem a isenção nos ônibus não só a partir de 65 anos, mas também entre 60 e 64 anos para quem tem renda de um a três salários mínimos. Além disso, os idosos têm tratamento igualitário no interior dos ônibus, usando o cartão TRI para passar a roleta. Outras medidas importantes são os semáforos com contagem regressiva para pedestres, atualmente, são 186 equipamentos em vias de intenso fluxo, que ajudam os idosos a planejar suas travessias, e também os abrigos do tipo Parada Segura, que são 380 modelos, com bancos. Para os condutores da terceira idade, há vagas exclusivas na área azul. Essas e outras ações seguirão sendo realizadas pela EPTC para garantir a segurança e a comodidade aos idosos."
5. Pensar arranjos habitacionais para o envelhecimento
Bibiana destaca a necessidade de garantir a moradia digna para todos, pensando em arranjos habitacionais que garantam a convivência e a solidariedade intergeracional, e aportando melhorias para as habitações precárias, especialmente em matéria de saneamento básico. Trabalhadores assalariados que necessitam sobreviver com uma aposentadoria restrita, deveriam ter escolhas para moradias mais racionais e adequadas aos seus orçamentos.
— Moradias assistidas para idosos, que não se pareçam com os antigos asilos como ainda encontramos frequentemente, devem ser propostas para as diversas classes sociais — defende Maria Luisa.
Eduardo Sabb, psiquiatra, membro do departamento geriátrico do Sindicato dos Hospitais e Clínicas de Porto Alegre (Sindihospa): "As instituições de longa permanência para idosos passaram a oferecer infraestrutura e assistência especializadas no conforto, bem-estar e segurança dos idosos, e tem sido cada vez mais comum o próprio idoso sugerir, pesquisar e visitar as casas geriátricas para sua moradia. No entanto, há um problema financeiro que precisa ser equacionado. Os investimentos para promover a qualificação dos serviços e cumprir a legislação implicam elevadas despesas financeiras, tributárias e operacionais, resultando em custos finais que tendem a não caber no orçamento de todas as classes sociais. Há muito pouco movimento das instituições governamentais em incentivar e viabilizar o encontro desses interesses. Temos ainda um grande vácuo a ser enfrentado na questão do envelhecimento, um grande desafio que não pode mais ser deixado para depois."

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